O falecimento de Naty Potira, vítima de um câncer metastático, levantou um alerta sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Após a morte da filha, Célia, mãe da torcedora santista, fez um apelo para que mulheres procurem acompanhamento médico, realizem exames regularmente e reforçou, principalmente, a importância da vacinação contra o HPV.
“Vocês que têm suas filhas, irmãs, mães, namoradas e esposas, incentivem a procurarem médicos, fazerem exames. Precisa ser descoberto a tempo de tratar. Incentivem as meninas da família a tomarem a vacina contra o HPV. Se a minha filha tivesse tomado a vacina, ela teria se salvado”, disse Célia, em entrevista ao canal Aqui se Fala de Santos.
Diante do alerta, o Portal Sereias conversou com a doutora Tathiana Parmigiano, ginecologista, obstetra e pós-graduada em Medicina Esportiva, que atua como ginecologista do Comitê Olímpico do Brasil (COB).
Em entrevista exclusiva, a médica explicou questões relacionadas ao HPV, vírus que infecta a pele e as mucosas e é considerado a Infecção Sexualmente Transmissível (IST) mais comum no mundo, além de abordar formas de prevenção, diagnóstico e a importância da vacinação.
O que é o HPV e transmissão
Portal Sereias: O que é o HPV e como ele é transmitido? O HPV é sempre uma infecção sexualmente transmissível?
Dra. Tathiana Parmigiano: O HPV é um vírus, o papilomavírus humano, e existem mais de 200 tipos de HPV. Eles vão infectar tanto a pele quanto as mucosas. Tem os que pegam a parte genital, e esses são geralmente sexualmente transmissíveis, pelo contato sexual, pele a pele ou mucosa a mucosa, às vezes até sem penetração. E tem outros tipos que pegam a pele, causando verrugas, pegam a mão, o pé, e aí não precisa do contato sexual.
Portal Sereias: Muitas pessoas associam HPV imediatamente a verrugas. É possível ter um tipo de HPV de maior risco sem apresentar nenhuma verruga? Qual é essa relação?
Dra. Tathiana Parmigiano: A gente fala que tem o HPV de alto risco e o de baixo risco. Do baixo risco, os mais conhecidos são o 6 e o 11, que causam as verrugas. E os de alto risco, os principais são o 16 e o 18, e tem outros. Geralmente, eles não causam verrugas e a gente os chama de oncogênicos. Esses vírus podem ficar silenciosos um tempão. Ter a verruga não significa que você tem risco de câncer, mas ela também pode estar associada a alto risco.
Portal Sereias: O HPV também pode ser transmitido por relações orogenitais? Quais regiões do corpo podem ser afetadas nesse tipo de contato?
Dra. Tathiana Parmigiano: O sexo oral pode, sim, transmitir. O vírus fica na boca ou na orofaringe. Então, sim, ele transmite. Principalmente o 16 pode pegar a parte da boca e da garganta.
Relação entre HPV e câncer
Portal Sereias: Qual é a relação entre o HPV e o câncer? Quanto tempo pode levar para uma infecção persistente evoluir para uma lesão mais grave?
Dra. Tathiana Parmigiano: O HPV demora, muitas vezes, para virar doença mesmo. Isso pode levar até 10 anos. Por isso é importante a gente investigar. Por isso que, às vezes, eu brinco que é o vírus que destrói casamento. Às vezes, você pegou em uma relação antiga, diagnostica depois e acha que é do parceiro atual. Então, você pode já ter sido infectado.
Mas o nosso sistema imune é muito bom. Geralmente, em alguns tipos de lesões, a gente não tem nem o tratamento. É realmente esperar de seis meses a um ano para que a nossa imunidade combata a presença do vírus. O problema é quando ele fica persistente. Aí, sim, o risco de câncer aumenta. Mas também, quando você tem um vírus positivo, acaba fazendo o controle anualmente. Então, você está sempre de olho na lesão e na evolução dela.
Portal Sereias: Quais tipos de câncer podem estar relacionados ao HPV, além do câncer do colo do útero?
Dra. Tathiana Parmigiano: Às vezes, a gente fala só do câncer de colo do útero, que é o mais famoso do HPV, mas ele pode pegar ânus, vulva, vagina; no homem, pode pegar o pênis e a orofaringe, que a gente falou. No colo do útero, 90% é HPV. No ânus também, mas os outros podem variar.

Diagnóstico e tratamento
Portal Sereias: Como uma pessoa pode descobrir que tem HPV? Quais exames são utilizados?
Dra. Tathiana Parmigiano: Antigamente, a gente fazia o Papanicolau, que é a citologia oncótica. Hoje, a gente tem um teste molecular, que vai procurar o DNA do HPV. É o material genético mesmo. A gente vai atrás, principalmente, dos de alto risco.
O Papanicolau e até mesmo a colposcopia, que é um exame mais específico, em que a gente olha no microscópio com a ajuda de algumas soluções, alguns líquidos que vão identificar, fazer com que uma lesão fique mais sobressaltada para ser submetida à biópsia, a gente hoje só faz se esse DNA do HPV vier positivo. Caso contrário, não precisa.
A coleta do DNA do HPV é da mesma maneira que era feito o Papanicolau. No homem, não tem um exame de rastreamento como na mulher e, muitas vezes, só a partir da lesão ou, eventualmente, se a mulher tem alguma lesão, a gente pede para investigar o homem.
Portal Sereias: Existe tratamento para eliminar o HPV do organismo ou o tratamento é voltado para as lesões causadas pelo vírus?
Dra. Tathiana Parmigiano: Não existe nenhum tratamento que elimina o vírus em si. A gente acaba falando que ele não tem uma cura, mas ele pode ficar em remissão. Você pode positivar uma vez e ele nunca mais aparecer. O que a gente acaba tratando mesmo são as lesões. Você trata verruga, você trata uma lesão que é precursora de câncer. Não necessariamente você vai no vírus.
Portal Sereias: Depois de receber um diagnóstico de HPV, qual deve ser a orientação para essa pessoa?
Dra. Tathiana Parmigiano: Quando você tem o diagnóstico, como eu falei antes, a primeira coisa, principalmente se for um oncogênico que a gente entenda que seja sexualmente transmissível, é entender que não necessariamente teve traição, porque isso muitas vezes abala o relacionamento. Ter o HPV positivo é muito comum. 70%, 80% das pessoas já tiveram contato. Mas ele não significa que você tem lesão, muito menos que você tenha câncer.
A gente tem que prosseguir com os exames. A pessoa é indicada à vacina, é indicada a mudança de hábitos, principalmente se fuma, e a fazer o acompanhamento certinho que o médico indica.
Prevenção e vacinação
Portal Sereias: Quais são as formas mais eficazes de prevenção contra o HPV?
Dra. Tathiana Parmigiano: O principal que a gente tem hoje é a vacinação. Antes, a gente tinha uma vacina que era quadrivalente, hoje a gente tem a nonavalente. Esses nove vírus são responsáveis por 90% dos tipos de HPV que causam o câncer. A vacina, idealmente, a gente faz antes de iniciar a vida sexual, mas isso não significa que ela não possa e deva ser feita até os 45 anos.
Isso não tem nada a ver com o parceiro. Então, relações hétero ou homoafetivas, os dois merecem o mesmo cuidado na vacinação. Usar camisinha é um meio muito importante para evitar a transmissão, tanto do HPV como de outras ISTs. Mas, às vezes, a lesão não está coberta pela camisinha. Então, ela não pode ser considerada 100% eficaz.
Portal Sereias: Quem deve tomar a vacina contra o HPV, qual é a faixa etária recomendada e ela é indicada para quem já iniciou a vida sexual?
Dra. Tathiana Parmigiano: A vacina é preconizada até os 45 anos, duas doses entre 9 e 14 anos, três doses a partir dos 15 anos. Homens e mulheres podem e deveriam ser vacinados.
Portal Sereias: Quem já teve HPV pode tomar a vacina? Ela ainda pode trazer benefícios?
Dra. Tathiana Parmigiano: Mesmo depois de você ter HPV, a vacina ajuda. Ela ajuda você, eventualmente, a se proteger contra aqueles tipos de vírus com os quais você não teve contato. E ela ajuda, muitas vezes, até mesmo na recorrência das lesões, na não progressão e na não recorrência das lesões. Então, ela está muito bem indicada.
HPV nos homens
Portal Sereias: Os homens também podem ser portadores assintomáticos do HPV e transmitir o vírus sem saber. Por que ainda existe tanto tabu em torno do HPV entre os homens?
Dra. Tathiana Parmigiano: Eu não acho que seja um tabu o HPV em homens, mas acho que isso é menos falado, até porque o homem demora muito para ter um médico seu. Diferente de uma mulher, que tem uma ginecologista desde muito nova, muitas vezes desde a menstruação, o homem vai procurar um urologista bem mais velho.
Além disso, a infecção no homem tende a ter poucos sintomas. Eles não fazem rastreamento igual nós, mulheres, fazemos. Então, fica muito associado que o HPV é o do colo do útero, mas, como a gente viu, pode pegar pênis, pode pegar ânus. Os homens também estão suscetíveis. Na verdade, o homem não tem esse aprendizado, como a mulher, de periodicamente fazer as suas consultas, principalmente quando o tema no ginecologista é bem abordado.
Mas a vacina, por exemplo, é super importante. A gente não pode esquecer que o homem é um grande vetor de transmissão. Então, vaciná-lo diminuiria muito o risco de as mulheres, que estão mais suscetíveis às doenças, realmente terem contato ou serem contaminadas pelo vírus.
HPV e atendimento pelo SUS
Portal Sereias: Como funciona a prevenção e o tratamento do HPV pelo SUS? A vacina está disponível para quem e quais exames e tratamentos são oferecidos pela rede pública?
Dra. Tathiana Parmigiano: No SUS, eles têm a vacina quadrivalente, não a nonavalente. Ela é preconizada principalmente dos 9 aos 14 anos, antes do início de vida sexual. Atualmente estão permitindo que pessoas mais velhas recebam, ao menos, uma dose. Não é o que está em bula. Em bula, acima dos 15 anos são três doses, dos 9 aos 14 seriam duas.
- 1 dose de 9 a 14 anos;
- 1 dose de 15 a 19 (para quem não tomou ainda);
Além disso, o SUS também fornece a vacina em esquema de três doses para pessoas vivendo com HIV, vítimas de abuso sexual e pacientes com NIC 2 ou mais e adenocarcinoma.
Entre os exames, o SUS faz Papanicolau. Eles estão tentando substituir pelo teste do DNA-HPV. Idealmente, os exames têm que ser colhidos até os 64 anos, entre 25 e 64 anos.
Acabar com o câncer de colo do útero é uma medida de saúde pública, porque o câncer de colo do útero tem muito a ver com um espelho da saúde de um país.
Portal Sereias: Para quem busca a vacinação contra o HPV na rede privada, existem diferenças em relação à vacina oferecida pelo SUS? Em quais situações pode valer a pena procurar a rede particular?
Dra. Tathiana Parmigiano: No SUS é a quadrivalente: 6, 11, 16 e 18. Fora do SUS, no privado, a gente tem a nonavalente, que tem esses mais cinco subtipos oncogênicos: 31, 33, 45, 52 e 58. A vacina é preconizada até os 45 anos, com duas doses entre 9 e 14 anos e três doses a partir dos 15 anos. Homens e mulheres podem e deveriam ser vacinados.
Desafios no combate ao HPV
Portal Sereias: O que você observa como principal dificuldade hoje no combate ao HPV: falta de informação, baixa vacinação, dificuldade de acesso aos exames ou outro fator?
Dra. Tathiana Parmigiano: Eu acho que a grande dificuldade hoje é, primeiro, conscientização, porque a gente tem uma vacina que “previne” o câncer. Isso é um ganho incrível. Idealmente, que o SUS fizesse as doses preconizadas em bula, mas, em alguns países, realmente eles já viram benefício com, pelo menos, uma única dose.
A segunda coisa é entender que a vacina nonavalente tem um custo maior mas ela é extremamente eficaz na prevenção do câncer. Então, vale a pena. Além disso, se a gente realmente fizesse um diagnóstico precoce, com a coleta de exames em consultas de rotina, a gente tem grandes chances de cura. Então, é um câncer com reais chances de cura! Isso faz com que esse cuidado seja muito importante.